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Sobre círculos e almofadas Marta sorria
enquanto segurava nervosamente o terceiro cigarro. As palavras, atropeladas por
sua compulsão, escondiam uma infelicidade qualquer. Além das mãos inquietas –
que arrumavam os cabelos alinhados ou gesticulavam quase expressivamente -,
tentava imprimir na conversa uma euforia mal disfarçada pelos olhos ainda
melancólicos. Falava de novas conquistas, viagens rápidas e a última novidade:
estava trabalhando. Eu escutava em
silêncio. Fingia interesse pela conversa e demonstrava profunda satisfação em
vê-la tão bem. Tivesse ela um pouco de sensibilidade, porém, teria percebido o
quanto sua presença me incomodava. Mas não, essa era uma de suas mais
irritantes características. O mundo, para Marta, podia ser construído e
desconstruído quantas vezes fossem necessárias desde que permanecesse sobre seu
domínio de visão, perspectiva ou fantasia. Enquanto
falava, apagava, acendia, tragava seus cigarros, eu me perdia nas lembranças de
um passado remoto. E sem que Marta se desse conta, sofria vendo-a assim,
desfigurada pelas feridas ainda abertas, interpretando um papel que a tornava ridícula,
quase simplória. Em nada se
parecia com a mulher de antes. Na praia, à noite, seus pés valsavam por entre
dunas e véus de gaze transparente. Não era de muito riso mas possuía uma tez
luminosa, vibrante até. A voz, entrecortada de silêncios que denunciavam mundos
indevassáveis, era suave, tranqüila, como uma coda em constante construção. Eu,
amante que era dos mistérios deste mundo, encantava-me com a mistura angelical
e demoníaca de Marta. E sentia-me cada vez mais preso aos devaneios daquele
anjo que, em alguns momentos, parecia-me caído. Olhando assim,
de longe, não tenho muito do que me queixar. Foram anos intensos e
desesperadores. Parecíamos personagens de alguma tragédia shakespereana
inventando, na agonia, aquilo que para Marta lhe parecia amor. Ao seu lado,
descobri-me feio, belo, triste, alegre, impotente, um leão capaz de rasgar em
pedaços o inimigo. Fiz-me louco, vulnerável, impaciente. Fiz-me terno, dócil,
amigo. No fim, não suportei minhas próprias inquietações e deixei-me levar
pelos mais negros ventos que escondem uma alma plácida. Após o
rompimento, achei melhor viajar. Foi quando conheci Lia, meiga e calma, Lia.
Tão diferente de Marta, mas tão necessária em minha vida agora arrumada,
tranqüila e, arrisco dizer, até previsível. Talvez por isso me incomodasse
tanto vê-la ali, entre as almofadas compradas por Lia, devorando seus cigarros
e escondendo na fumaça um turbilhão de sentimentos que tão bem conheci. De repente
senti o sangue congelar. Marta, em silêncio, deixou o olhar perder-se naquele
ponto invisível, longínquo, impenetrável. E mil lilases seriam insuficientes
para dizer do brilho que vislumbrei em seus olhos. A mesma dor calada, o pulso
quente, o fogo indivisível das paixões queimava em suas pupilas. Senti-me
roubado, traído, desamparado. Quis pedir-lhe que se retirasse, mas permaneci
imóvel. E minha respiração, que tentei interromper para não quebrar a alquimia
do silêncio, tornou-se ofegante. Imaginava Lia entrando pela porta, com suas
sacolas e o sorriso aberto, interrompendo com seus saltos e a simpatia incontida
aquele silêncio. O silêncio. O
silêncio de Marta falava-me mais do que qualquer outra palavra que ela pudesse
ter pronunciado até então. Não resistindo mais, deixei-me levar pelos caminhos
percorridos por ela. Vi-me em campos desnudos de verde e flores, construindo
altares a deusas pagãs; balancei-me em cordas penduradas num céu de azul
esmaecido e mergulhei em águas que mais pareciam poças de lodo e barro.
Senti-me voltando ao pó, membros e carne
transformados em nada. Tremendo, quis pedir-lhe que parasse, que voltasse, que
me largasse novamente na rica poltrona na qual eu me recostava há apenas alguns
segundos. Não sei ao
certo quanto tempo permanecemos nessa agonia. Sei que quando finalmente Marta
saiu do seu transe retornando para o papel que encenava, eu me encontrava
morto. Não que meus músculos estivessem paralisados ou que o pequeno e safenado
coração tivesse parado. Funcionavam perfeitamente. Mas algo me havia sido
novamente tirado. E Marta sabia disso. Acendendo seu último cigarro, meneou
levemente a cabeça e disse-me que estava tarde, precisava ainda passar na
livraria e, depois, seguir para o trabalho. Ah, o trabalho, acabou não me
contando como estava sendo mas prometia voltar outra vez para falar-me em
detalhes. Eu sorri. E, mesmo sem acreditar no que estava dizendo, disse-lhe que
era sempre bem vinda. Lia iria adorar conhecê-la e poderíamos tomar todos um
bom vinho, saboreando a melhor lasanha da cidade. |