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A teia e a aranha |
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Ana olhava o jardim e lembrava-se das palavras que o padre tinha lhe
dito. ‘É preciso admirar a obra do Pai, minha filha’, e a voz do velho
preencheu os mais sombrios cantos, habitados sabe Deus por quais fantasmas de
Ana. Olhava um pequeno gerânio nascido no canteiro à esquerda da casa. Podia
satisfazer-se com aquela beleza? E fazendo essa pergunta a si mesma, ia recortando
no ar as figuras que lhe surgiam à mente. Pensava nos sonhos desenhados para um
futuro que o tempo desmentiu, revendo em cada canto daquela casa, as cenas que construíram
sua existência. Imaginava-se a aranha, quando na verdade descobriu-se inseto,
enredada em teias que ela própria ajudou a tecer. Deixando de lado o livro que teimava em abrir, caminhou até o gramado. Imaginou
se haveria algum sentido maior do que sua vista podia alcançar naquela paisagem
tão harmoniosamente elaborada pelas mãos do homem: as rosas brancas, o jasmim
perto das janelas, as azaléias espalhadas por entre as pequenas pedras do
caminho, os gerânios. Olhava ainda as palmeiras que circundavam o pequeno
pátio, as samambaias com suas longas cabeleiras verde-musgo e as fruteiras para
dar sombra. Tudo, porém, lhe parecia estéril. Sentia-se como uma velha
construção, os canos cobertos pela ferrugem, as paredes úmidas e o teto
manchado pela fuligem. Lembrou-se de Pina. Por onde andaria, agora? E as imagens da
adolescente que foi tomaram-lhe de súbito. Abandonada no banco cujo reparo passou
a adiar, deixou-se banhar pelas águas da memória... Os sonhos, os projetos, a
vida pintada com todos os matizes da liberdade. Pina seria bailarina, viajaria
o mundo rodopiando sobre sapatilhas enquanto Ana prometia o riso e o choro que
só a ficção perdoa. Falariam outras línguas, deitariam em lençóis de cetim e
deixariam na vida daqueles que porventura cruzassem seus caminhos, uma marca
indelével. Com
um suspiro que parecia ser o último, Ana procurou afastar-se daquele lago
plácido que ameaçava transformar-se num rio de fortes correntezas. Sentia que
estava muito próxima do fim e percebeu, vendo-se ali, sozinha, que de nada lhe
adiantariam tais lembranças. Tentou lançar-se na segurança de um bote – pensou
que dali a uma semana a filha mais velha estaria casando -, mas era tarde. E
antes mesmo que pudesse se levantar e apanhar novamente o livro, sentiu-se
afogar como personagem de si mesma. Primeiro o casamento com Armando, e suas
constantes mudanças para acompanhá-lo, depois as filhas, a casa, as festas que
devia organizar, as economias que insistia em fazer, e tudo, tudo que foi, aos
poucos, afastando-a dos sonhos que antes alimentava. Não que o casamento lhe
roubasse a possibilidade de ser feliz. Afinal, pensava, quando decidiu largar o
grupo para seguir o marido em sua carreira diplomática, Ana era a mais feliz
das mulheres. Sim, tinha um marido a quem admirava e amava. E não se importava,
dizia a todos e a si mesma, em abandonar a profissão. Mas os anos foram passando
e, com eles, a leveza do corpo. Como se não bastassem as heranças acolhidas
pela maternidade, viu-se despojada de cuidados mínimos que, agora, nenhuma
diferença fazia. Havia se habituado ao calor que toda aquela gordura lhe proporcionava.
Era quase como se pudesse se proteger dos medos que a vida solitária lhe
prometia. Não podia se queixar, talvez ela mesma não fizesse diferente se
estivesse no lugar de Armando. Sim, certamente não se prenderia a uma lúgubre
companhia tendo à frente uma brisa leve tocando o rosto. Por isso, talvez,
perdoara o marido. Além do mais, tinham as filhas. Tão jovens e sonhadoras...
Não seria justamente ela quem colaboraria para esmaecer as cores escolhidas por
suas meninas para pintar seus mundos. Afinal, que diferença faria dizer-lhes o
quanto sofria? Pensando assim, Ana sentiu orgulho de si mesma. Era uma mãe
devotada capaz dos maiores sacrifícios. E havia sido uma boa esposa. Sim, sim,
Armando mesmo fazia questão de dizer o quanto lhe era grato pelos anos passados
juntos. Com
um gesto que desenhava um enfado qualquer, Ana procurou afastar o pensamento de
Armando. Era, sem dúvida, uma mulher que guardava alguma dignidade. Mesmo a
gordura, não lhe impedia a altivez do andar e até certa graça, diriam alguns.
Vestia-se com bom gosto, conduzia uma conversa com a docilidade de um
equilibrista e, vez ou outra, arriscava alguns comentários que deixavam
transparecer a fineza dos pensamentos. Mas em que isso agora lhe podia ser
útil? Afora o espaço circundado por aqueles muros que protegiam a ampla casa, nada
lhe despertava interesse. A verdade é que Ana habituou-se a respirar o ar
rarefeito das ilusões matrimoniais. E agora que este lhe faltava, não sabia
sequer porque se levantar da cama. Com
o casamento de Laura, a casa ficaria ainda mais vazia. Não poderia contar com
Lia, sempre tão ocupada com seus cursos, viagens e namoros. Era necessário
encontrar um novo sentido para os anos que lhe restavam e, talvez por isso,
tivesse ido ao encontro do padre. Diziam-lhe que era um homem sábio que após
ter perdido a família num acidente aéreo, resolvera dedicar-se à religião. Desde
o primeiro encontro, o padre Paulo mostrou-se solícito para com Ana. Ela falava por horas e horas e, quando cansava,
permaneciam algum tempo em silêncio. Ana, de início, não compreendia como um
homem que mal abria a boca poderia ajudá-la. E então ele falava. Geralmente
sobre coisas das quais Ana não se recordava de ter observado antes. Uma vez
contou-lhe uma história de uma espécie de pássaros que passa a vida à procura
do parceiro, o único a dividir a continuidade da espécie. Nesse dia, Ana
chorou. E, talvez para acalmá-la, o padre Paulo finalizou dizendo que apesar de
não sermos da mesma família que esses pássaros, podemos voar como eles. ‘A senhora
nunca sentiu isso antes?’, perguntou. ‘Ora, imagino que se a senhora se
permitisse fechar os olhos e apagar da mente as lembranças que tanto corroem
seu espírito, sentiria, aos poucos, a leveza de asas que a levariam para
lugares nunca antes visitados, a liberdade de voar, de sentir-se um pássaro, um
instrumento de Deus ao sabor dos ventos’. Ana
lembrava-se dessas palavras e procurava, quase inutilmente, algum sentido para
a imagem sugerida pelo padre. ‘Um instrumento de Deus ao sabor dos ventos’... E
tudo lhe parecia ridículo, pueril. Sentiu-se de repente envergonhada por
procurar a ajuda de um padre. Onde estava com a cabeça? Levantou-se
repentinamente e seguiu em direção a varanda. Estava subindo o terceiro degrau
da escada quando ouviu um canto que lhe chamou a atenção. Virando-se
lentamente, Ana enxergou no galho mais baixo do jasmim, um pequeno pássaro.
Voltou ao jardim e prostrada frente à ave colorida, deixou-se ficar em
silêncio, admirando a obra de Deus. |