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O vôo da lagarta |
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Joana vivia uma vida medíocre. Do casamento, desfeito há
alguns anos, ela guardava, além da filha, a esperança de que o marido pusesse a
mão na consciência e voltasse na decisão de abandoná-la. Para deixar claro ao
companheiro que havia se resignado na espera, resolveu largar o imóvel que
tinham construído juntos e voltou a ocupar, na casa dos pais, o antigo quarto
de solteira que dividia com a filha. Com o dinheiro que ganhava da pensão e
mais os vencimentos da carreira de funcionária pública, Joana trocou o antigo
Chevette por um carro popular moderno. E todos os meses, após pagar a escola e
os cursos que o futuro reclamava à filha, engordava a conta da boutique comprando
sempre as últimas novidades da moda.
A monotonia da rotina era para Joana uma necessidade. Fazia
a ginástica matinal, corria para o banho, comia algumas torradas diet com café puro e seguia,
pontualmente às sete horas, para o trabalho. Depois do almoço, quando se encontrava
por alguns minutos com a pequena, deixava-se cair na cama por meia hora e antes
mesmo que o despertador tocasse, estava se vestindo para retornar à repartição.
À noite, após o jantar com a família, Joana sofria com as tragédias encenadas
nas novelas. Às oito e meia, mandava Júlia para a cama, dava boa noite aos pais
e dormia, enfim, o sono dos justos.
Depois do primeiro ano da separação, arriscou alguns
namoros – as amigas diziam que isso podia surtir um efeito benéfico no antigo companheiro.
Com uma extensa lista de conhecidos em comum, Joana foi se deixando levar pela
ilusão de que um pouco de ciúme faria com que Antônio a quisesse novamente ao
seu lado. A euforia do início, porém, foi desanuviando na medida que o homem
encarava com aparente tranqüilidade as conquistas da ex-mulher. Mesmo assim,
não esmoreceu. Fez promessas a todos os santos, acendeu velas e mandou rezar
missas na intenção da família. Depois, desesperada com a falta de respostas
celestiais, procurou cartomantes e, por último, resolveu freqüentar os
terreiros da cidade. Não satisfeita, mas confiante nas mandingas e amarrações
que lhe custaram algum dinheiro, passou a comprar e ler livros que prometiam a
fórmula mágica para reconquistar e manter o amor eterno; emagreceu, pintou de louro
os cabelos e tornou-se simpática ao movimento ambientalista.
Quando
já estava quase desistindo da empreitada, Joana conheceu Rômulo. Proprietário
de uma pequena revendedora de automóveis, o rapaz encantou-se com os saltos
altos e os balangandãs de cigana – eram a última moda estampada nas revistas –
que Joana usava. Passaram a sair juntos e em pouco tempo ela havia se
acostumado à companhia docilmente canina do rapaz. O que Rômulo não suspeitava,
no entanto, é que Joana movia-se empurrada por algumas reações de Antônio que
passou a reclamar quando ligava para saber notícias da filha e encontrava o
celular de Joana desligado. Para ela, não restava dúvidas que Antônio
angustiava-se com a entrada de Rômulo em sua vida. E
foi pensando assim que Joana anunciou o noivado para a família. De início, os
prováveis e futuros sogros do rapaz torceram o nariz. Não o achavam digno da
filha nem tampouco capaz de sustentar-lhe os hábitos. Mas, no final, acabaram
acostumando-se com a idéia. Passaram então a fazer os planos para o casamento –
sempre adiado por Joana. Compraram terreno, investiram em poupança, trocaram
alianças – numa cerimônia de que ninguém soube notícias. Aos
amigos, que perguntavam pra quando era o casório, Rômulo sorria sem graça e dizia
que estavam providenciando. O rapaz, coitado, nem em sonho conseguia imaginar
que passaria longos oito anos à espera dos caprichos de Joana. No fim, acabou
desistindo. Conheceu em Monte Serrado uma professorinha, vendeu a loja e
resolveu mudar-se para lá. Quando
recebeu a notícia da decisão de Rômulo, Joana não acreditou. O que faria agora
para que Antônio entendesse que perderia de vez a mulher com que sempre
sonhara? Foi
quando tudo aquilo começou a acontecer. Um dia, a mãe estranhou o fato de Joana
não ter se levantado para a ginástica e bateu na porta do quarto. Encolhida na
cama, a filha não falava. A pobre mãe ficou ainda mais desorientada e,
sacudindo Joana, perguntava o que estava acontecendo. Mas Joana não respondia.
Após um tempo de dura insistência, a velha resolveu deixar o quarto e tratou de
contar ao marido o acontecido. No
almoço, a cena se repetiu. E dessa vez não era apenas a mãe, mas também o pai
que tentava animar a filha. Como Joana não se mexesse, resolveram chamar um
médico. Doutor Alfredo, velho amigo da família, examinou-a em silêncio. Depois
de alguns minutos, deu o veredicto: fisicamente ela não tem nada. O problema
está na cabeça. Problema
de cabeça ou não, o fato é que Joana mudou. Primeiro foi o silêncio. Depois, o
estranho hábito de arrastar-se lentamente pela casa e se deixar ficar encolhida
em um canto, sendo lambida pelo cachorro da pequena. Não comia nada a não ser
folhas verdes que aprenderam a deixar numa vasilha ao pé da mesa da cozinha.
Quando ouvia qualquer barulho estranho, Joana contorcia o corpo magro e
escondia-se embaixo de um móvel qualquer. Os olhos, antes vivos, pareciam
sempre fechados. Não tomava banho e deixou de usar a cama para dormir. A
família, mesmo chocada com a transformação da filha, acabou cedendo à mão de
Deus e só tomava as precauções necessárias para que aquela tragédia
permanecesse entre as paredes da casa. Afinal, como explicar a um estranho que
Joana enroscava-se quando via um pássaro, contorcia-se e rastejava pelos cantos
e se alimentava apenas de folhas? Nem mesmo doutor Alfredo teve mais notícias.
Para ele, inventavam sempre uma nova desculpa que explicasse a ausência de
Joana. Dois anos se passaram assim. Até que um dia ouviu-se novamente a voz de Joana. Um grito agudo seguido de uma sonora gargalhada despertou a família que correu para o quarto da moça. Quando lá chegaram, o primeiro sentimento foi de esperança. O seguinte, quando viram Joana em pé, vestindo uma túnica translúcida, descalça, com os cabelos enfeitados com fitas e contas coloridas quase dançando pelo quarto, foi de alegria. A menina, vendo o reflexo de si mesma, sorria com os olhos. A mãe, enternecida com a graça tão esperada, agradecia a Deus por ter ouvido suas preces. O pai, ainda que taciturno e com um ar cansado, mal conseguia disfarçar a emoção na retina úmida. Quando todos pareciam encenar o final feliz de um drama, Joana caminhou em direção a varanda, seguida pela alegria que foi morrendo aos olhos de cada um na medida em que a moça trepava-se no parapeito de mármore. Dona Lia precipitou-se e ralhou com a filha: Joana, desça já daí! Ao ouvir o chamado, a moça virou-se lentamente e, sorrindo, perguntou: Lembra daquela borboleta que você me trouxe espetada numa caixa de fundo branco? Sempre quis saber como deixaria flutuar suas asas por esse imenso espaço sem vida...E em meio ao susto, a letargia e ao silêncio petrificado dos pais e da pequena, Joana lançou-se num vôo que cruzou o jardim e espalhou pela grama os pedaços de fitas que adornavam a cabeleira. |