Ana

Laura

Lia

Joana

Júlia

Pina

Sílvia

Marta

Ismênia

Sofia

Amanda

 

O vôo da lagarta

 

 

Joana vivia uma vida medíocre. Do casamento, desfeito há alguns anos, ela guardava, além da filha, a esperança de que o marido pusesse a mão na consciência e voltasse na decisão de abandoná-la. Para deixar claro ao companheiro que havia se resignado na espera, resolveu largar o imóvel que tinham construído juntos e voltou a ocupar, na casa dos pais, o antigo quarto de solteira que dividia com a filha. Com o dinheiro que ganhava da pensão e mais os vencimentos da carreira de funcionária pública, Joana trocou o antigo Chevette por um carro popular moderno. E todos os meses, após pagar a escola e os cursos que o futuro reclamava à filha, engordava a conta da boutique comprando sempre as últimas novidades da moda.

A monotonia da rotina era para Joana uma necessidade. Fazia a ginástica matinal, corria para o banho, comia algumas torradas diet com café puro e seguia, pontualmente às sete horas, para o trabalho. Depois do almoço, quando se encontrava por alguns minutos com a pequena, deixava-se cair na cama por meia hora e antes mesmo que o despertador tocasse, estava se vestindo para retornar à repartição. À noite, após o jantar com a família, Joana sofria com as tragédias encenadas nas novelas. Às oito e meia, mandava Júlia para a cama, dava boa noite aos pais e dormia, enfim, o sono dos justos.

Depois do primeiro ano da separação, arriscou alguns namoros – as amigas diziam que isso podia surtir um efeito benéfico no antigo companheiro. Com uma extensa lista de conhecidos em comum, Joana foi se deixando levar pela ilusão de que um pouco de ciúme faria com que Antônio a quisesse novamente ao seu lado. A euforia do início, porém, foi desanuviando na medida que o homem encarava com aparente tranqüilidade as conquistas da ex-mulher. Mesmo assim, não esmoreceu. Fez promessas a todos os santos, acendeu velas e mandou rezar missas na intenção da família. Depois, desesperada com a falta de respostas celestiais, procurou cartomantes e, por último, resolveu freqüentar os terreiros da cidade. Não satisfeita, mas confiante nas mandingas e amarrações que lhe custaram algum dinheiro, passou a comprar e ler livros que prometiam a fórmula mágica para reconquistar e manter o amor eterno; emagreceu, pintou de louro os cabelos e tornou-se simpática ao movimento ambientalista.

            Quando já estava quase desistindo da empreitada, Joana conheceu Rômulo. Proprietário de uma pequena revendedora de automóveis, o rapaz encantou-se com os saltos altos e os balangandãs de cigana – eram a última moda estampada nas revistas – que Joana usava. Passaram a sair juntos e em pouco tempo ela havia se acostumado à companhia docilmente canina do rapaz. O que Rômulo não suspeitava, no entanto, é que Joana movia-se empurrada por algumas reações de Antônio que passou a reclamar quando ligava para saber notícias da filha e encontrava o celular de Joana desligado. Para ela, não restava dúvidas que Antônio angustiava-se com a entrada de Rômulo em sua vida.

            E foi pensando assim que Joana anunciou o noivado para a família. De início, os prováveis e futuros sogros do rapaz torceram o nariz. Não o achavam digno da filha nem tampouco capaz de sustentar-lhe os hábitos. Mas, no final, acabaram acostumando-se com a idéia. Passaram então a fazer os planos para o casamento – sempre adiado por Joana. Compraram terreno, investiram em poupança, trocaram alianças – numa cerimônia de que ninguém soube notícias.

            Aos amigos, que perguntavam pra quando era o casório, Rômulo sorria sem graça e dizia que estavam providenciando. O rapaz, coitado, nem em sonho conseguia imaginar que passaria longos oito anos à espera dos caprichos de Joana. No fim, acabou desistindo. Conheceu em Monte Serrado uma professorinha, vendeu a loja e resolveu mudar-se para lá.

            Quando recebeu a notícia da decisão de Rômulo, Joana não acreditou. O que faria agora para que Antônio entendesse que perderia de vez a mulher com que sempre sonhara?

            Foi quando tudo aquilo começou a acontecer. Um dia, a mãe estranhou o fato de Joana não ter se levantado para a ginástica e bateu na porta do quarto. Encolhida na cama, a filha não falava. A pobre mãe ficou ainda mais desorientada e, sacudindo Joana, perguntava o que estava acontecendo. Mas Joana não respondia. Após um tempo de dura insistência, a velha resolveu deixar o quarto e tratou de contar ao marido o acontecido.

            No almoço, a cena se repetiu. E dessa vez não era apenas a mãe, mas também o pai que tentava animar a filha. Como Joana não se mexesse, resolveram chamar um médico. Doutor Alfredo, velho amigo da família, examinou-a em silêncio. Depois de alguns minutos, deu o veredicto: fisicamente ela não tem nada. O problema está na cabeça.

            Problema de cabeça ou não, o fato é que Joana mudou. Primeiro foi o silêncio. Depois, o estranho hábito de arrastar-se lentamente pela casa e se deixar ficar encolhida em um canto, sendo lambida pelo cachorro da pequena. Não comia nada a não ser folhas verdes que aprenderam a deixar numa vasilha ao pé da mesa da cozinha. Quando ouvia qualquer barulho estranho, Joana contorcia o corpo magro e escondia-se embaixo de um móvel qualquer. Os olhos, antes vivos, pareciam sempre fechados. Não tomava banho e deixou de usar a cama para dormir.

            A família, mesmo chocada com a transformação da filha, acabou cedendo à mão de Deus e só tomava as precauções necessárias para que aquela tragédia permanecesse entre as paredes da casa. Afinal, como explicar a um estranho que Joana enroscava-se quando via um pássaro, contorcia-se e rastejava pelos cantos e se alimentava apenas de folhas? Nem mesmo doutor Alfredo teve mais notícias. Para ele, inventavam sempre uma nova desculpa que explicasse a ausência de Joana.

            Dois anos se passaram assim. Até que um dia ouviu-se novamente a voz de Joana. Um grito agudo seguido de uma sonora gargalhada despertou a família que correu para o quarto da moça. Quando lá chegaram, o primeiro sentimento foi de esperança. O seguinte, quando viram Joana em pé, vestindo uma túnica translúcida, descalça, com os cabelos enfeitados com fitas e contas coloridas quase dançando pelo quarto, foi de alegria. A menina, vendo o reflexo de si mesma, sorria com os olhos. A mãe, enternecida com a graça tão esperada, agradecia a Deus por ter ouvido suas preces. O pai, ainda que taciturno e com um ar cansado, mal conseguia disfarçar a emoção na retina úmida.

           Quando todos pareciam encenar o final feliz de um drama, Joana caminhou em direção a varanda, seguida pela alegria que foi morrendo aos olhos de cada um na medida em que a moça trepava-se no parapeito de mármore. Dona Lia precipitou-se e ralhou com a filha: Joana, desça já daí! Ao ouvir o chamado, a moça virou-se lentamente e, sorrindo, perguntou: Lembra daquela borboleta que você me trouxe espetada numa caixa de fundo branco? Sempre quis saber como deixaria flutuar suas asas por esse imenso espaço sem vida...E em meio ao susto, a letargia e ao silêncio petrificado dos pais e da pequena, Joana lançou-se num vôo que cruzou o jardim e espalhou pela grama os pedaços de fitas que adornavam a cabeleira.