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A mulher que copulava com anjos

Estranho sentir que ainda hoje, mesmo Sílvia passando com suas bandejas fumegantes em direção à sala de jantar, a chuva me faça buscar a figura de Laura.

Era conhecida na rua como a louca do quarto andar. É verdade que tinha lá suas manias, mas nada que justificasse a crueldade dos vizinhos. Sempre sozinha, costumava descer as escadarias evitando os mosaicos desenhados nos degraus – parecia uma bailarina traçando gracejos no ar. No hall da entrada do velho prédio, a cena se repetia. E Laura caminhava, dando pequenos pulinhos, sem tocar os sapatos de bico fino nos desenhos do mármore antigo. Seu Manoel, o zelador, havia se habituado às excentricidades da jovem senhora e sempre que a encontrava, sorria gentilmente. Laura, por outro lado, parecia ser fisgada de um mundo só seu e reagia, quase sempre, com uma expressão de susto seguida por enorme melancolia distribuída nos olhos chorosos e nos lábios que se abriam levemente.  

Nos primeiros anos em que começou a trabalhar ali, seu Manoel estranhou o fato de nunca ter visto ninguém, nem mesmo os entregadores de farmácia, pizza ou supermercado, procurarem seu apartamento. Depois, passados tantos anos, isso deixou de ser um problema. O que às vezes ainda lhe intrigava era o fato de nunca ter sido chamado, ele próprio, para fazer um pequeno conserto ou ajustar um vazamento. Mas dona Laura era sem dúvida diferente dos outros moradores do prédio. Vai ver, não precisava mesmo de ninguém, repetia para si e para os outros.

Não se sabia ao certo o que fazia para garantir o sustento. Alguns achavam que era escritora e que se escondia atrás de um pseudônimo qualquer. Os mais maliciosos deixavam-se perder em conjecturas libidinosas, enquanto outros juravam ser a moça uma dessas excêntricas herdeiras que não sabendo o que fazer do dinheiro, escondia-se numa vida relativamente modesta. Mas nada disso, viu-se depois, possuía fundo de verdade.

O branco, única cor que se via contrastar com os fartos cabelos negros, parecia um grande paradoxo em Laura. Mas esse era mais um de seus pequenos mistérios, afinal, como explicar tanto sofrimento e dor nos gestos e no olhar de uma pequena vestida de branco? Pois era assim que Laura surgia, para logo depois desaparecer, sob o parapeito da minha janela. Nos dias em que ela saía e era obrigada a atravessar a rua para apanhar sempre a mesma condução, eu a seguia aflito. Ou melhor, meus olhos a seguiam. Nunca realmente tive coragem, apesar do enorme desejo e da curiosidade que àquela mulher despertava em mim, de acompanhar-lhe o trajeto. Eu a amava assim, de longe. Alimentava-me com os boatos da vizinhança, as suposições e as interjeições que sua figura pudesse causar. No início, iludi-me com a idéia de que o frio que percorria a espinha quando meus olhos repousavam em sua imagem, era fruto de mera inquietação. Dessas que costumo ter na vida: uma nova mulher, um filme proibido, o último cd do Stéreo Total. Mas como estava enganado!

Não sei bem em qual momento me deixei arrastar por esse sentimento que passado o enterro e todo o resto, ainda grita em mim. Acho que tudo foi graças àquele feriado chuvoso, quando, de bobeira na minha janela, vi Laura correndo descalça na chuva, jogando aos ventos, margaridas e outras flores do campo. A rua estava deserta e a imagem daquela mulher que se descobria, entorpeceu-me. O corpo - praticamente desnudo pelo vestido transparente que grudava na pele  -, os cabelos em desalinho, os pés flutuando nas poças formadas pela chuva torrencial. E ela ali, distribuindo flores para mãos e formas imaginárias. Estaria vendo anjos?

Depois desse episódio, meu peito passou a apertar. Troquei meu horário de trabalho para adequá-lo aos momentos em que Laura saía à rua. Eu precisava vê-la e imaginar-lhe a respiração, os passos leves e interrompidos, os olhos que nunca consegui prender aos meus. Era preciso adivinhá-la. E foi o que fiz durante muito tempo. Talvez seja loucura, mas arrisco afirmar que fui feliz.

Depois de dois anos alimentando-me deste sentimento platônico, eu finalmente reuni coragem para aproximar-me. Mas era tarde. Hoje, arrependo-me de todas as vezes que o impulso do coração arrastava-me para Laura enquanto a razão freava meus passos. Tolo é o homem que segue apenas a razão. 

Nunca fui muito de acreditar nessas coisas de premonição, mas no dia em que vi a movimentação no prédio em frente, veio-me à mente Laura. E na medida que os carros de polícia iam chegando, minha respiração ia falhando, minhas pernas ficando bambas, meu corpo desfalecendo. Mesmo assim, caminhei em direção à porta, desci as escadas e atravessei a rua. Encontrei seu Manoel sentado atrás do balcão, os olhos úmidos, o corpo em concha . Sem dizer palavra, subi os quatro lances de escadaria e deparei-me com a porta do apartamento aberta. Mulheres e homens aglomeravam-se na entrada e como abutres, tentavam roubar de Laura aquilo que ela negava ao mundo.

Senti-me um pouco sujo de usar da minha posição para entrar no recinto, mas a insana necessidade de encontrar Laura me fez deixar de lado os escrúpulos. Ninguém ali imaginava o que realmente me fazia olhar cada detalhe das coisas espalhadas dela, nem tampouco o fogo que ardia em mim quando repousei minhas mãos sobre suas pálpebras e fechei seus olhos.

No quarto, em frente à cama cuidadosamente arrumada com lençóis de linho e cambraia, um vestido de noiva e um longo véu branco enfeitado com pequenas e delicadas flores frescas encontravam-se pendurados numa espécie de pedestal. No canto da janela, um baú guardava finas e elegantes lingeries. Um perfume adocicado tomava conta de todo o ambiente. Sobre o criado-mudo, sua figura diáfana entrelaçava-se a de um homem num retrato preto-e-branco.

Quando vi a cena, senti-me atordoado, traído. Não sabia mais quem era Laura. Só depois, quando soube de toda a história, pude reconciliar-me com a imagem daquela mulher que rodopiava e copulava com anjos, abraçando-a novamente na memória úmida.

Pelas datas encontradas em fotos e cartões dos presentes de casamento, e depois pelas cartas, descobriu-se que Laura tinha sido deixada no altar. O noivo, um arquiteto famoso, tinha se apaixonado por uma jovem pintora de mosaicos e fugido com ela para a Europa. Para diminuir a culpa, passou a depositar, todos os meses, uma quantia suficiente para que Laura continuasse a tocar sua vida.

Nos diários de Laura, a rotina que antecedeu a data marcada para a cerimônia parecia repetir-se sem monotonia. Por 10 anos a fio. E não fossem as cartas com o carimbo da Itália, podia-se jurar que a qualquer instante o arquiteto entraria pela porta da frente para deixar as flores do campo que adornariam a noiva.