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O fim e o começo
Eu deveria ter
começado a escrever no dia 7 mas apesar das palavras gritarem dentro de mim, as
mãos não obedeceram. O sol é causticante lá fora e pela janela ouço o assoviar
dos passarinhos. Minhas mãos unem-se num fio de águas e seu peso me parece um
amontoado de nuvens... Sinto-me sem forças e minha única vontade é de me deitar
na cama para dormir um sono profundo. Mas as anotações deixadas sobre a mesa me
fazem afastar, ao menos por alguns instantes, essa idéia. Releio as
últimas palavras de Carlos e tento encontrar algum sentido para o emaranhado de
desencontros pousados sobre o papel carmim. “Não penses que o amor é o caminho da felicidade tranqüila. Essa idéia,
alardeada pelos tolos, é um grande equívoco. Veja o exemplo de Dora e Franco.
São duas pequenas almas infelizes que insistem em encenar o drama do casamento
perfeito. Ele, sempre a procura de subterfúgios para não parar em casa
(trabalho, meus caros, trabalho muito) e ela, buscando nas horas vagas do
cabeleireiro, a fórmula para a felicidade. Você não acredita realmente que isso
possa servir de exemplo para quem quer uma vida honesta e produtiva, não? Sei,
sei. Você deve estar pensando agora que eles têm as crianças e isso é uma
grande alegria na vida de duas pessoas. Ora, Amanda, o que são duas crianças em
meio a tanto caos? Nós mesmos poderíamos agora estar arrependidos caso não
tivéssemos resolvido pelo aborto naquele incidente da praia de Santos...” Nunca
suportei, em Carlos, esse cinismo. Lembro da primeira vez que o vi defender a
tese de que a única prova de amor na qual ele acreditava era o suicídio
coletivo. Mirtes, que estava na época encantada com um venezuelano que lhe
mandara duas mil rosas em forma de chuva, ficara horrorizada. E quanto mais
estupefata, mais Carlos explicava – com gestos teatrais e palavras que
respingavam alguma crueldade – que só haveria de acreditar em meus sentimentos
no dia em que concordasse em deitar-me com ele, após termos ingerido veneno. “Já pensou o que seria de nossas vidas se
além de nossas próprias angústias tivéssemos que carregar a culpa pelas
angústias de um ser partido de nossas entranhas? Eu não suportaria, Amanda, e
você sabe disso. Imagino que você deva estar pensando o quanto sou cínico – não
era assim que você me chamava quando estava aborrecida? – mas acredite, eu
realmente não pretendia lhe fazer nenhum mal. Dei a você o melhor de mim. E por
muito tempo acreditei que poderíamos fazer tudo o que sempre sonhei, juntos.
Mas lembra aquele dia lá em Santiago, quando poderíamos seguir Julia e Anselmo
no clube de swing? Pois é, foi ali, em meio a sua recusa seguida de choros e
lamentações que compreendi que nossos caminhos deveriam seguir separados. Você,
infelizmente, está presa a um conceito do qual não compartilho. Gosto de
experimentar a vida e isso, Amanda, para mim, significa experimentar o sexo...” Júlia...Nunca imaginei que Carlos pudesse realmente se interessar por ela. Seu corpo exalava sexo - coxas bem torneadas, cintura fina, nádegas que apontavam para o céu -, mas era uma mulher sem muitos encantos à mesa. Nos dias que passamos juntos, Carlos mal conseguia disfarçar a irritação que lhe causavam as piadas e histórias contadas por Julia. No pequeno restaurante que jantamos na segunda noite, ele levantou-se irritado quando ouviu-a pedir aos músicos que parassem de tocar àquela ‘porcaria’ – summertime, uma de suas músicas preferidas. “Seu sentimentalismo conseguiu acabar com as
nossas férias e desenvolver, em mim, verdadeira repulsa. Daquele dia até o
último que passamos na cidade, só conseguia pensar o quanto eu seria feliz
quando levasse Júlia para a cama. É verdade que demorou um pouco mais do que eu
imaginava – e também teve aquele problema todo com o Anselmo -, mas valeu a
pena. Ao contrário de você, Júlia mostrou nutrir verdadeira adoração pelo meu
modo de enxergar esse mundo escroto no qual somos obrigados a viver. Juntos
fomos a lugares onde poucos seres humanos ousariam colocar os pés – exceto,
claro, vagabundos, proxenetas,
prostitutas e outras poucas espécimes da raça. Tanta coragem me fez
descobrir nessa mulher uma beleza inigualável...” Depois do
incidente do clube eu realmente notara que Carlos havia mudado. Além de evitar
deitar-se no mesmo horário que eu, passou a procurar ocupações que lhe tomavam
boa parte do dia. No começo, achei que estivesse preocupado com o novo projeto. E só alguns
meses depois fui entender o que estava acontecendo. “Lembra daquela noite que te liguei avisando que teria um trabalho para
terminar e que você não precisava me esperar? Pois é. Encontrei Júlia no
elevador do Edifício Garagem e chamei-a para um café. Graças a Deus não
precisei sequer tirar o carro da vaga. Quando entramos, rocei displicentemente
minha mão em sua perna e Julia eriçou-se toda, pulou no meu pescoço e começou a
chupar-me violentamente. Transamos ali mesmo. Eu bem que tentei te falar, mas
acho que você não queria ouvir, não é Amanda?
A verdade é que dali em diante, eu só conseguia respirar Júlia...” Carlos passou
a não almoçar nem jantar em casa. E nos finais de semana, trancava-se no
escritório e só saía para beliscar alguma coisa quando percebia que eu estava
no quarto. Um dia chegou mais cedo e pediu que eu me arrumasse porque teríamos
visita. Júlia chegou às 9 horas. Trouxe uma garrafa de vinho português que,
quando abrimos, percebemos ser de péssima qualidade. Mas Carlos não fez nenhum
comentário. Pelo contrário, portou-se de maneira extrovertida e deu boas
gargalhadas quando Júlia arriscou novamente suas piadas lidas pela internet. É
claro que nem passava pela minha cabeça a idéia de vê-los juntos. Julia
definitivamente não fazia o tipo de Carlos. “Transávamos todos os dias e praticamente em qualquer lugar que
estivéssemos. Fomos a clubes de swing, sadomasoquismo e outras coisas do
gênero. Aprendi a arte do shibari e experimentei, de cabo a rabo, o
kamasutra. Julia era insaciável e topava qualquer maluquice que passasse pela
minha cabeça...”. No dia que ele
resolveu sair de casa, deixou-me um bilhete no qual se liam apenas três
palavras: vida é sexo. Demorei a entender o que estava se passando e confesso
que só compreendi quando entrei no quarto e vi os armários de Carlos vazios.
Duas semanas depois ele me ligaria para avisar que estava dando entrada no
divórcio porque pretendia, até o final do ano, casar-se com Julia. “Eu só não imaginei que levaria a sério a
história do suicídio coletivo. Na noite que lhe disse que essa era a maior
prova de amor que alguém poderia dar, Julia fez-me jurar que nos mataríamos na
primeira noite de lua-de-mel. Amanda, você me conhece e sabe que não abro mão
de minhas convicções. Por isso, tratei de desenhar todo o ritual. Julia comprou
uma lingerie branca, espalhou flores do campo por todo o quarto e acendeu velas
perfumadas. Pedimos o melhor champanhe do hotel, trocamos juras de amor e uma
pequena caixinha com um pó azulado dentro. Eu estava tremendamente excitado com
toda àquela história e quando dei por mim, vi Julia lambendo languidamente os
dedos azuis ao mesmo tempo que me apontava a outra caixinha. Seu corpo estava
reclinado sobre os travesseiros forrados de seda e os cabelos emolduravam-lhe
os ombros seminus. Ao mesmo tempo que abria as pernas e com uma mão ia subindo
a camisola, Julia usava o outro indicador para lembrar-me da caixinha... Minhas
mãos apertaram o pequeno recipiente mas não tive ação sequer de abri-lo. Eu
estava paralisado com a cena. Julia enfiava vagarosamente os dedos em seu sexo
enquanto lambia toda a outra mão... Seus olhos reviravam-se de tesão e eu mal
conseguia acompanhar-lhe os movimentos das ancas subindo e descendo entre os
lençóis. Ela tentou agarrar-me com os pés, mas era tarde. Do canto da boca, vi
sair uma gosma branca, uma espécie de baba que Julia ainda não havia percebido,
tal era o seu delírio. Quis gritar-lhe que parasse, mas a voz não saía. Julia
então começou a debater-se na cama, e os espasmos mancharam toda a lingerie.
Com os olhos esbugalhados, ela procurava falar-me mas a língua estava agora
enrolada. As mãos entortaram-se e Julia procurava-me com os olhos. Soltei a
caixinha que segurava e corri até a porta. Quando gritei por socorro, senti um
ar quente queimando-me as costas. Quando virei, dei de cara com os olhos de Julia.
Arregalados, pude ler naquele último instante a pergunta que me faziam: por
quê?” Resolvo rasgar as folhas escritas por Carlos e deixar-me guiar pela melancolia. Lembrei de minha mãe em suas intermináveis orações. Senti que a raiva por Ismênia tinha dado lugar a um sentimento que misturava ternura e compreensão. Revirando as caixas que me havia deixado, pude mergulhar nos segredos que a explicavam, nos sabores e cheiros vindos da cozinha de minha avó Silvia e no silêncio mordaz que revelavam as fotos de minha bisavó. Depois de jogar ao lixo os últimos vestígios de Carlos, sentei-me em frente ao computador com a tarefa de desenhar o primeiro fio de minha própria história. E mergulhando nas lembranças de minha bisavó Pina, comecei, depois de tantos anos, a escrever a história de Ana e suas mulheres. |