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Um bibelô |
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Herdei de minha mãe a sublime arte de ser agradável, irrepreensível. Não que a tenha conhecido bem – lembro-me vagamente de alguns beijos na testa e de sua cabeleira arco-íris caindo varanda abaixo – mas pelo que falam meus avós. Cresci entre paredes confortáveis, bibelôs que não se arrastavam dos lugares, pratos finos sobre a mesa e uma enorme biblioteca cujos livros nunca saíam de onde estavam. Estudei nas melhores escolas, tinha um guarda-roupa de dar inveja a qualquer menina da minha idade e não falava palavrões. Seguia, como minha mãe, a rotina de toda pessoa normal e, principalmente, bem-educada. “É um anjo de candura, essa criança”, “Que menina especial!”, diziam todos. Se tomada pelo enorme desejo de gritar, podia-o fazer com os empregados. No mais, seguia a vida como a moldavam para mim. Era realmente uma criatura sem os defeitos do choro – que cedo aprendi a engolir -, da birra – que logo soube disfarçar – e da vontade própria – que soube dobrar às alheias. É verdade que reservava, na ausência dos olhos que me seguiam, algumas pequenas maldades. E quando assim o fazia, desculpava-me no espelho, dormindo com a certeza de que eu era realmente tudo aquilo que me diziam. Quando entrei na adolescência, freqüentei todas as festas da sociedade. As melhores famílias e os melhores partidos. Continuei sem precisar abrir a boca. Era bonita, bem arrumada e já sabia com perfeita exatidão o que esperavam de mim. Houve, porém, uma época, que senti pesar a máscara que carregava. Foi quando comecei a namorar. Ser santa, quando o corpo reivindica suas vilanias, não era tão fácil quanto ficar calada, engolir o choro, parecer solidária. Resisti até onde pude, mas depois, dobrei-me como os juncos nos vendavais. Com a habilidade de uma gueixa e a necessidade de uma puta, consegui tudo o que quis. Destruí lares sem graça, apimentei o ciúme de casais apaixonados, acabei com a reputação de umas poucas mulheres, fiz sofrer pobres coitados que acreditavam em minha generosidade. Aos meus avós nada mudaria a imagem tão bem construída de boa moça e, de resto, à sociedade pouco importava as sujeiras – desde que fossem bem encobertas. Pude então respirar aliviada. E deixar-me levar – sem nenhuma culpa – pelos desejos mais escondidos e verdadeiros de minha alma. Fui mesquinha, traiçoeira, mentirosa, arrogante, insensível. Hoje sei a dose exata da boa imagem que todos precisamos zelar. Um sorriso na hora certa, uma mentira agradável – porque poucos suportam a verdade -, um jeito previsível de ver o mundo, e todas as portas do céu abrem-se para mim. |