Ana

Laura

Lia

Joana

Júlia

Pina

Sílvia

Marta

Ismênia

Sofia

Amanda

 

Simulacro de perfeição

Lia olhava as fotos dispostas num suntuoso aparador e pensava o quanto era feliz. Tinha conhecido Cláudio em uma viagem à Grécia – país, aliás, que detestava. E não fosse por ter encontrado o futuro marido, jamais se perdoaria por ter trocado Miami por um cruzeiro às ilhas gregas. Lembra como se fosse hoje a mãe insistindo para que ela e Laura aceitassem o presente do pai: “Laura, minha filha, vá com sua irmã. Vai lhe fazer bem”. Mas, coitada de Laura, quem disse que alguém conseguia convencê-la de sair?

Tocando com as pontas dos dedos a fotografia de casamento, Lia teve um leve estremecimento. Desde que haviam se conhecido, evitava pensar sobre o assunto que vez ou outra lhe retornava ao coração. Cláudio a amaria? Mas antes mesmo que pudesse pensar em responder, fez um gesto de quase desdém, olhou-se no espelho, arrumou os cabelos e observou uma pequena mancha próximo ao olho esquerdo. Isso sim era importante, pensou. Ligaria pela manhã mesmo para sua dermatologista marcando uma consulta. Afinal, Cláudio adorava vê-la sempre bonita, bem cuidada. E também admirava a capacidade que tinha de administrar a casa.

Vendo-a assim, perdida entre as certezas que encontrava para seduzir e manter feliz o marido, ninguém arriscaria supor que Lia não fosse realmente a mulher que todo homem procura. Tudo bem que na adolescência, pouco se importava com os cuidados que a mãe tinha na casa – e às vezes até os ridicularizava. Não conseguia imaginar-se cuidando de roupas, comidas e de recepções para os amigos de um marido. Mas o tempo passa e os interesses mudam.

Depois de ter conhecido Cláudio, achou melhor deixar para trás a faculdade de publicidade, descobriu que não tinha nascido mesmo para trabalhar, ganhar mercado, essas coisas. A essa escolha, vieram as compras cada vez maiores em lojas de roupas, as visitas às casas de decoração, as assinaturas de revistas de beleza e mais livros e livros de etiqueta, como fazer um homem feliz, a esposa perfeita etc.

Sentia-se uma privilegiada. Tinha um bom marido, ostentava uma grossa aliança no dedo, podia fazer boas compras, ter tempo livre, enfim, era feliz. Sim, pensou, era realmente feliz. Não tinha amigos – sua prudência fez ver que não combinavam com os gostos de Cláudio -, mas achava que, aos poucos, estava sendo aceita pelo círculo de amizade do marido. Achava-os um tanto esnobes, é verdade, mas não se incomodava. E quando algum tentava provocá-la perguntando sobre um romance tal ou um escritor x, saía pela tangente oferecendo um pouco mais de vinho ou um canapé de camarão. No fim, todos saíam de sua casa com a mesma impressão de Cláudio: Lia era um doce de perfeição.

No entanto, ela achava que Cláudio, apesar de estar sempre lhe dizendo o quanto a achava meiga, não valorizava seus esforços. As almofadas, por exemplo. Tinha-as comprado por uma fortuna e quando Lia o chamou para ver, disse apenas: “são lindas, meu bem”. Lia, claro, nunca reclamou. Aprendeu que o marido é fisgado pela calmaria e, portanto, não se atrevia, em nenhuma hipótese, a fazer o que a maioria das mulheres faria em algumas ocasiões: discutir a relação.

Nem mesmo quando chegou em casa e encontrou Cláudio calado, com o olhar tão perdido quanto no dia que se conheceram, Lia cobrou-lhe alguma coisa. Sentiu um perfume feminino na sala, misturado com o cheiro de cigarro que impregnava suas lindas almofadas. Também percebeu que o marido não escutava o que estava tentando lhe contar. Mas nada daquilo, pensava, poderia lhe afetar o lar. Por isso, Lia não se abalou. Tinha suas armas e logo mais, daria a ele a última cartada.

E assim foi. Durante o jantar, fez-se ainda mais doce, solícita, perfeita. Não perguntou nada, e nem sequer mencionou o fato de os cinzeiros, que nenhum dos dois usavam, estarem abarrotados. Depois da mousse de chocolate – a sobremesa preferida de Cláudio -, do café e do licor, Lia disse apenas: estou esperando um filho. E sem olhar para o marido, continuou: se for menino, gostaria que se chamasse Cláudio. Se for menina, Joana. Você concorda, meu bem?