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Setembro de 1921. Meu querido, Não suportei esperar
pela autorização de meus pais para lhe escrever! Meu coração está em pulos
desde o último baile e mal consigo disfarçar o rubor das faces ao lembrar de
meu corpo rodopiando no salão ao sabor de sua destreza. Sinto-me leve! Como uma
pluma arrancada do chapéu da senhora Alcântara... Lembra-se dela? Não, não há
de se lembrar... Mas não importa, meu querido. Quando irei vê-lo novamente? Por
certo irás comparecer ao salão de chá, não? Oh, diga que sim! Com amor, Pina. Setembro de 1921.
Meu querido,
Por que não fostes ao salão de chá? Fiquei a esperá-lo por toda à tarde! Acaso não sentistes minha falta? Meu querido, meu querido... As horas, para mim, congelaram. Sinto-me desvanecer sem notícias suas... Não estais, com o silêncio, querendo dizer-me que não lhe agrado mais, espero. Eu não suportaria! Você notou o cair da tarde? A primavera está chegando e desconfio que é para celebrar o amor que toma conta de meu espírito. Não se demore, querido. Posso morrer se não tiver notícias suas...
Com amor,
Pina. Setembro de 1921.
Meu querido,
Perdão, perdão! Não tive nenhuma intenção de lhe causar problemas e posso lhe garantir que não há de enfrentar nenhuma resistência por parte de minha família. Mas mesmo assim, peço-lhe perdão... Agi como uma tola! Mas compreenda, querido, não prego mais os olhos deste que nos encontramos pela última vez. E já faz tanto tempo! Sinto que se não fosse pelo amor que agora me preenche, estaria definhando. Morreria como uma flor a quem os donos esqueceram de regar...
Por favor, diga-me que tenho o seu perdão...
Da sua e sempre,
Pina. Outubro de 1921.
Ana, minha querida, Por que não vens passar uns dias conosco em Petrópolis? Papai disse que só voltaremos ao Rio na próxima semana e já faz tanto tempo! Venha, minha amiga, sinto-me só... E além do mais precisamos por em dias as novidades! E antes que você pergunte: Sim, me casarei até o final do ano! Não é maravilhoso? Sei que não era exatamente o que planejávamos em nossas deliciosas tardes (aliás, minha querida, preciso urgente de uma nova costureira, pois minhas roupas andam causando certos aborrecimentos para M.), mas acredite, minha cara, nenhum sonho poderia me fazer mais feliz do que estou... Oh, Ana, Ana... Diga que virá me ver? Da amiga de hoje e sempre, Pina. Meu querido, Como sabes, estou de volta. E um pouco triste porque imaginei que depois de tantos dias sem notícias suas, estarias me esperando. O que houve? Não se aborreça com meus queixumes... Apenas não estou suportando a ausência! Tenho novidades que certamente lhe farão muito feliz! Pois não estás curioso? Venha logo, meu querido. Tenho certeza que irás gostar. Com amor, Pina.
Novembro de 1921.
Meu querido, Perdoe-me. Prometo controlar meus ímpetos! Você ainda está aborrecido comigo? Não gostou mesmo da fotografia? Tiramos, Ana e eu, no último fim de semana. Estávamos na casa de tia Mirtes e um lambe-lambe foi chamado para fazer o retrato... O resto, eu já lhe expliquei... Vamos, não fique triste. Serei uma boa menina. E nada de fotografias dançantes! Com amor, Pina. Dezembro de 1921. Meu querido,
Estamos lhe esperando amanhã. Disse a papai que você viria acompanhado de minha futura sogra! Todos ficaram felizes...Os preparativos para o casamento continuam. Tens certeza de que será necessário mudarmos a data? Gostaria tanto que as festas coincidissem com os festejos natalinos... Não é uma data linda?
Da sua,
Pina.
Janeiro de 1922.
Estimado R.,
Todos nós sentimos sua falta durante a ceia. Recebeu os mimos que lhe mandei? Sim, fui à modista. A boa senhora tomou-me as medidas e disse-me que os modelos estarão prontos antes do casamento. Quando retornarás ao Rio? Já não era tempo? Desculpe-me, mas é que pensei que poderíamos ir ao baile no final desta semana...
Da sua,
Pina.
Janeiro de 1922.
Querida Ana,
Sinto-me uma tola em lhe fazer tal pergunta, mas, o que pensas a respeito de R.? Parece-lhe que me ama? Oh, minha querida... Devo estar enlouquecendo de amor! Esqueça, esqueça essa bobagem! Como andas? Em casa está uma loucura, a data do casamento se aproxima e mamãe está em nervos! R. disse-me, esta semana, que não pretende fixar residência no Rio. Fiquei apavorada com essa idéia! Mas os argumentos dele acabaram por vencer-me: disse-me que não há razão para ficarmos aqui, já que não precisarei mais estudar... Além do mais, falou-me da idéia de ocupar o casarão herdado pela família que, como sabes, está localizado nas proximidades de L. Você não me deixará sozinha, deixará?
Saudades,
Pina. |