Ana

Laura

Lia

Joana

Júlia

Pina

Sílvia

Marta

Ismênia

Sofia

Amanda

 

 

Pobre Silvia. Sinto pena de minha irmã... Sabe-se lá o quanto teve que abrir mão da vida para fugir da loucura... E o que recebeu em troca? Por isso não me canso de pensar que não cabe ao homem a escolha. Gostaria de poder ajudá-la, mas são tantos anos de silêncio. E o que posso fazer por Ismênia se ela própria já selou seu destino? O passado não nos deixa esquecer. Tenho medo do silêncio.

 

Agosto de 1982.


 Fico olhando para a vida de Silvia e me pergunto de onde tira forças para cuidar, aos 57 anos, de duas pequenas criaturas. E pensar que todos os sonhos silenciosos de Silvia estavam em Ismênia. Ainda hoje não sei se minha sobrinha sabe o destino da avó. Mas conhecendo Silvia, como eu conheço, posso apostar que não. Para minha irmã, esconder a sujeira em baixo do tapete sempre foi o melhor artifício. Se não cozinhasse um carneiro maravilhoso, eu diria até que Sílvia jamais esteve sentada àquela mesa. Falamo-nos rapidamente ontem, ao telefone. Ismênia continua no quarto.

 

Agosto de 1982


Falo de Silvia, mas eu mesma tenho dúvidas quanto ao que sinto vendo Ismênia nessa situação. É um filme que se repete? Silvia escolheu o silêncio para não enlouquecer. E esse mesmo silêncio fez de Ismênia a figura tosca de hoje. E eu? O que fez o silêncio comigo? Em que momento da minha vida resolvi ser o que sou? Em qual esquina derrubei na calçada a jovem sonhadora e romântica para encarnar a mulher de hoje? Silêncio.

 

Agosto de 1982


 Resolvi deixar de lado, pelo menos por um tempo, as preocupações com Silvia ou Ismênia. Não me parece justo que eu sofra com isso. Flora disse-me hoje que precisa de um tempo. O que é um tempo? Penso num espaço em branco de cadernos minuciosamente preenchidos. Serei eu o espaço em branco?

Setembro de 1982.


Gosto do mês de setembro. Além da sonoridade - setembro -, gosto das flores desabrochando. Do perfume que sinto quando passo pelas praças. Gosto do chão amarelo de minha casa. E das paredes fotografando a existência. Gosto do odor de lavanda nas camisas de Flora e dos doces em compotas comprados especialmente para os domingos sonolentos. Gosto de setembro.

Setembro, 1982.


Flora voltou para casa. Disse-me que não entendia as cartas encontradas no baú do escritório. Eram as cartas de Cláudio. Olhando hoje, à distância, procuro compreender os sentimentos e eles me parecem estranhos. Já não sei mais afirmar se o que sentia era realmente amor. Desconfio que não. Talvez fosse um desejo íntimo de punição, vindo provavelmente das lembranças de minha infância. Mas não posso negar que devo a ele, a descoberta de Flora. Minha doce Flora.

Outubro de 1982.


Que coisa estranha, o passado. Resolvi, juntamente com Flora, olhar as cartas do baú. Não tenho nada para esconder dela, e ela sabe disso. Quando nos conhecemos, havia acabado de me encontrar, pela última vez, com Cláudio. Foi Flora quem me acalentou, me cobriu as feridas invisíveis e abriu novas na carne virgem das sensações que hoje tão bem conheço. Não vou negar que no começo tentei resistir. Pensava em mamãe e, principalmente, em Sílvia. O que diria ela? Depois percebi que esta era a vida que eu tinha. E que cabia a mim a escolha de como queria vivê-la. Ao contrário de minha irmã, resolvi vivê-la com verdade. Entreguei-me não só a alma delicada de Flora como também à língua quente de minha companheira. A mesma que ainda hoje, deitada ao meu lado na cama, me faz tremer a carne quando movimenta as mãos em baixo dos lençóis. Flora, Flora...

Outubro de 1982.


Não me importa o que pensam os outros a meu respeito. Dane-se o mundo. Dane-se Sílvia, com sua tez severa a bisbilhotar a calmaria de Flora. Não perdôo minha irmã e acho desprezível que ela continue vindo até aqui como se não soubesse de nós. Como se Flora fosse apenas uma amiga, alguém com quem divido as contas da casa para não pesar no orçamento. Pobre Flora. Sinto vontade de agarrá-la no meio da sala, diante de Silvia, para acabar de uma vez por todas com essa cortina de mentira que minha irmã insiste em levantar entre nós. Mas Flora, com toda a sua timidez, foge de Silvia. Minha querida, tantos anos juntas e ainda és obrigada a viver este circo armado pela incapacidade de Sílvia em lidar com o improvável da realidade. Como se nossas vidas coubessem nos orçamentos domésticos.

Outubro de 1982.