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A solidão arrisca novos passos. E o silêncio da noite e das palavras desenha enormes mosaicos de interrogações e lágrimas. Da janela entreaberta do quarto, escuto correr os carros. Imagino faróis perdidos nesta vaga ilusão de espera, fio de água cortando sólidas rochas. Com um olhar perdido de gueixa, penso numa triste canção. E o que me resta, senão entoar estranhos sons de melancolia? Posso, é certo, fazer do rosto um carnaval de máscaras: um sorriso aqui e uma alegria ali para deixar tranqüilos os transeuntes. No mais, guardar a réstia de força para fazer ninar o medo quando se fecharem, por trás de mim, as portas que me guardam o quarto. Encarar, então, esse bicho estranho, face horrenda traçada na inquietude dos anos, e deixar que a prece adormeça a fúria lancinante dos gestos. Não é possível, agora, olhar-me sem culpa no espelho. Nem tampouco sorrir. Não há como seguir impune sobre os vendavais que faço correr dentro e fora de mim. Eu precisaria saber calar, antes, o medo. Porque ao contrário do que pareceria justo, é ele quem me empurra e me faz lançar sob o desfiladeiro. Esse estreito e sinuoso caminho que pareço ter necessidade de percorrer. Como um suicida em potencial. Um kamikase sem pátria nem honra para defender. Depois da noite, a manhã. Olho o céu e procuro encontrar forças para não partir. Os pombos se escondem da chuva fina, um casal se banha alheio às minhas idiossincrasias. Tentar, talvez, um método trágico: o silêncio, a fome calada, o grito mudo. Não assustar a platéia, não manchar o palco armado na embarcação nem deixar que respingue o sangue na roupa do contramestre. Dizem-me que é preciso viver. Mas a chuva me encarcera. Ficar sem comer. Ficar sem falar. Ficar sem beber. Ficar sem fumar. Apenas ficar. Para que a culpa não pese. E quem saberá do que se passa em mim? Eu poderia, caso o quarto fosse suficientemente alto, atirar-me ao chão. Transformar-me em uma massa disforme e ensangüentada. E a vida continuaria. Com suas festas, risos e compromissos. A vida continuaria porque aqui não há nada que valha cinco minutos de atenção. Os velórios passam como circos: durma, querida. Você precisa descansar. A chuva cai. Os pombos se banham. Eu olho a janela. |