Poesias

Crônicas

Textos

Fragmentos

Ensaios

Blog

 

 

 

O acalanto da noite
espanta o bisonho pássaro
Abrindo sobre mim as asas
de insanos desejos

No desalento das horas
O tique-taque dos relógios
invade o último pedaço
de chão e terra de minha alma

Sobram em mim os devaneios
da vida e da morte
Um manto singelo que
esconde a verdade dos demônios


Quando silêncio bisonho cruzar a sala de casa
não haverá arrastar de chinelos ou lâmpadas
acesas esquecidas no meio da noite.

Sobre a mesa posta, pouco importará a
desarmonia das cores dos pires e xícaras
e nem mesmo dos farelos esquecidos de pão,
irás lembrar.

Quando silêncio bisonho cruzar a sala de casa,
estarás descalças, descabelada, largada do último
fio que sustentava tua existência.

Sobre as fotografias cuidadosamente arrumadas
pesará enorme interrogação e não pensarás nos
livros, discos ou escritos guardados minuciosamente
ao longo dos anos, em caixas de sapato.

Quando silêncio bisonho cruzar a sala,
varrer os cantos e adentrar o quarto,
terás teu sono ausente de horas e minutos.


Vísceras amorfas
despertam a ira
dos anjos

E o cheiro de naftalina
emprega o ritmo
das horas

Por todos os cantos
o pó reveste
o que havia de límpido

E enquanto a garganta
engasga o grito,
as folhas sujas do jardim
balançam ao vento.


Ando sozinha no meio do salão
enquanto alegres fantasmas
tecem suas teias
de frágeis enganos

Nessa bizarra festa,
sou como a bruma
desfalecendo
da aurora

Uma promessa insistente
de luz e sombras
entre o amanhecer
e o cair da tarde

Meu copo transborda
de um líquido que nasce
e morre em minhas
entranhas

E minhas vestes já não cobrem
nada, além dos desejos
escondidos sobre
o manto da indiferença
necessária.


Lembranças uterinas

Não quero ser apenas leve
porque cultivo em mim
a ferida de quem desconhece
seus próprios abismos.


A fuga
        no fogo
da noite

        Afago na noite
em fogo

        Afoga o meu desencanto.


Ventos e horas 
trouxeram-me o nada.
Sorrisos de esquina na boca
gestos pálidos
luzes néon - ainda recendendo a éter e gozo,
matei o amor.


Pirilâmpagos

Pendurei teus olhos
no varal da noite
E eram tão claros, teus olhos,
que se fizeram pirilampos
na madrugada.