Os pombos

Porque a menina chora

A abstinência da palavra?

Desejo

O caminhar

 

 

O céu está escurecendo e a chuva ameaça cair lá fora.

Aqui dentro chove há mais tempo. Uma chuva fina, dessas de fim de tarde. Com gosto e cheiro de melancolia, um convite às lágrimas que guardamos sem nem saber o porquê.

É banhada por essa chuva fina que caminho. Úmida e silenciosa. Me faltam palavras, me falta o calor, me falta o fogo que antes queimava as entranhas, úmida e silenciosa.

Eu conheci o lado obscuro do desejo. Vi a face mais suja da desesperança. Beijei a boca do abandono e dormi em lençóis de medo. Fui verme, fui sombra, fui morte. Um cheiro medonho de desencanto.

A incompreensão alheia era minha única companhia. E o que antes era promessa foi esvaindo-se, desprendendo-se da única coisa que me restava: o nome. Por ironia ou gratidão, resolvi mantê-lo. Não que traduza mais alguma verdade. Não traduz. Aliás, não diz nada. Nem de umidade, nem de silêncio. É apenas um nome. Lembrança daquilo que um dia existiu.

Um nome. Uma lembrança. A chuva fina, úmida e silenciosa.