Entre a cruz e
o pecado: Angústias e contradições do
homem Barroco

De médico e de louco...

 

 

 

Entre a cruz e o pecado:
Angústias e contradições do homem Barroco

“Todos temos por onde sermos desprezíveis. Cada um de nós traz consigo um crime feito ou o crime que a alma lhe pede para fazer(Fernando Pessoa)

            A afirmativa acima, escrita por Fernando Pessoa em o Livro do Desassossego, caminha lado a lado das provocativas idéias do personagem principal do filme Contos Proibidos do Marquês de Sade.  Nesta película, assim como em toda a manifestação artística (literatura, pintura, escultura, arquitetura) barroca, o homem se contorce em dúvidas, dores e contradições. Uma mistura que irá impregnar de formas rebuscadas, além de jogos de luzes e sombras, a pintura e a arquitetura barroca. De tal rebuscamento não escapará também a literatura que será vivenciada pelos autores da época como uma extensa corda bamba onde o homem, segundo José de Nicola, vivia um “estado de tensão e desequilíbrio, do qual tentou evadir-se pelo culto exagerado da forma, sobrecarregando a poesia de figuras, como a metáfora, a antítese, a hipérbole e a alegoria”. Para José de Nicola, o rebuscamento característico desta época “(...) é reflexo do conflito entre o terreno e o celestial, o homem e Deus (...), o pecado e o perdão, a religiosidade medieval e o paganismo renascentista, o material e o espiritual” (NICOLA, José de. In: Literatura Portuguesa – Das origens aos nossos dias. São Paulo, Scipione, 1999.).

Para compreendermos melhor a fragilidade (?) com que se reveste o artista barroco é necessário relacioná-la com a nova concepção de mundo com a qual teve que se deparar o homem após a descoberta científica de Copérnico. “A teoria de que a Terra se move em volta do Sol, em vez do Universo mover-se em torno da Terra, como antes se supunha, mudou, para todo o sempre, o velho lugar designado ao Homem, no Universo, pela Providência. Agora, a Terra já não podia ser considerada como centro do Universo, nem o homem podia ser considerado como o fim e propósito da Criação” (HAUSER, Arnold. In: História Social da Literatura e da Arte. São Paulo, Mestre Jou, 1972-1982).

Apesar do Barroco ter surgido em toda a Europa no século XVII, não se pode afirmar que tenha sido um movimento homogêno, tendo mantido, em alguns países, além de denominações diferentes – Gongorismo, na Espanha; Marinismo, na Itália; Eufuísmo, na Inglaterra; Preciocismo, na França e Silesianismo, na Alemanha -, algumas particularidades. No que diz respeito a Portugal, a estética barroca nasceu acompanhada da crise não só dos valores renascentistas como também do movimento de expansão e glória que antecedera as últimas décadas do século XVI.

Solto de suas crenças antigas, e perdido num espaço que apontava para o infinito, o homem barroco irá transportar para sua obra todo o horror de seus próprios medos e conflitos, colocando, em xeque, sua própria condição. Quando no filme Contos Proibidos do Marquês de Sade Madeleine pergunta ao abade como podemos saber se somos bons ou maus, ele responde: “Só podemos policiar nossas próprias fraquezas”. Esse sentimento de que o homem é falho e de que é necessário um grande esforço para não sucumbir ao pecado, permeará boa parte da literatura da época. O sensualismo e o próprio amor caminharão juntos com a preocupação de culpa e absolvição divina.  

Um bom exemplo de tal preocupação pode ser visto no texto Amor que une e amor que desune, do padre Antônio Vieira, um dos mais importantes autores portugueses do Barroco:

“Começando pelo amor. O amor é essencialmente união, e naturalmente a busca; para ali pesa, para ali caminha, e só ali pára. Tudo são palavras de Platão, e de Santo Agostinho. Pois se a natureza do amor é unir, como pode ser efeito do amor o apartar? Assim é, quando o amor não é extremado e excessivo. As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários. A dor, faz gritar; mas se é excessiva faz emudecer; a luz faz ver; mas se é excessiva cega; a alegria alenta e vivifica; mas se é excessiva mata. Assim o amor, naturalmente une; mas se é excessivo divide... O amor, diz Salomão, é como a morte. Como a morte, rei sábio? Como a vida dissera eu. O amor é união de almas; a morte é separação da alma; pois se o efeito do amor é unir, e o efeito da morte é separar, como pode ser o amor semelhante à morte? O mesmo Salomão se explicou. Não fala Salomão de qualquer amor, senão do amor forte... E o amor forte, o amor intenso, o amor excessivo produz apartamentos. Sabe-se o amor atar, e sabe-se desatar como Sansão! Afetuoso, deixa-se atar; forte, rompe as ataduras. O amor sempre é amoroso; mas umas vezes é amoroso e unitivo, outras vezes, amoroso e forte. Enquanto amoroso e unitivo, ajunta os extremos mais distantes e mais unidos. Quais são os extremos mais extremos, mais distantes e mais unidos que há no mundo? O nosso corpo e a nossa alma. São os extremos mais distantes; porque um é carne, outro espírito; são os extremos mais unidos porque nunca jamais se apartam. Juntos nascem, juntos crescem, juntos vivem, juntos caminham, juntos param, juntos trabalham, juntos descansam; de noite e de dia; dormindo e velando; em todo o tempo, em toda a idade; em toda a fortuna; sempre amigos, sempre companheiros, sempre abraçados, sempre unidos. E esta união tão natural, esta união tão estreita, quem a divide? A morte. Tal é o amor... O amor, enquanto unitivo, é como a vida; enquanto forte é como a morte. Enquanto unitivo, por mais distantes que sejam os extremos ajunta-os; enquanto forte, por mais unidos que estejam, aparta-os.”

Com seu estilo conceptista – marcado pelo “jogo de idéias, de conceitos, seguindo um raciocínio lógico, racionalista, que utiliza uma retórica aprimorada” (NICOLA, Jose de. In: Literatura Portuguesa – Das origens aos nossos dias. São Paulo, Scipione, 1999), Vieira se utiliza do termo “amor forte” para designar, certamente, as paixões carnais. Uma crítica sutil, porém bem argumentada entre o equilíbrio do comportamento humano esperado e propagado pela Igreja. O padre, que nasceu em Lisboa em 1608 e veio para o Brasil onde ingressou na Companhia de Jesus em 1623, deixou um legado de profecias, cartas (aproximadamente 500) e sermões (cerca de 200), entre eles o Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real de Lisboa em 1655 e considerado como um de seus principais sermões. Segundo José de Nicola, o Sermão da Sexagésima é “Polêmico, (...) resume a arte de pregar. Ao analisar ‘porque não frutificava a palavra de Deus na terra’, visava a atingir seus adversários católicos – os gongóricos dominicanos”. Nesse texto, o padre começava (intróito) com a seguinte provocação:

“(...) Ora, suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende deste três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender a falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?”

Além de Vieira, outros nomes fazem parte da História da Literatura Portuguesa Barroca como Francisco Lobo, D. Francisco Manuel de Melo, Padre Manuel Bernardes, Frei Luís de Sousa, Antônio José da Silva e Soros Mariana Alcoforado, além da obra Fênix Renascida (que reúne cinco volumes de poemas cultistas e conceptistas) e o texto anônimo Arte de furtar. Entre esses, é possível encontrar além do estilo conceptismo, o cultismo “Caracterizado pela linguagem rebuscada, culta, extravagante; pela valorização do pormenor mediante jogos de palavras, com visível influência do poeta espanhol Luís de Gôngora” (NICOLA, Jose de. In: Literatura Portuguesa – Das origens aos nossos dias. São Paulo, Scipione, 1999).

Voltando ao filme Contos Proibidos do Marquês de Sade é interessante notar como os temas desejo, medo, hipocrisia e religiosidade são tratados de forma a mostrar, com cores vivas, o abismo em que se encontrava o homem barroco. Um abismo reconhecido nas palavras do abade “existe em cada um de nós beleza e abominação” e uma hipocrisia recheada de desejos e falsa moral personificada na figura do médico Royer-Collard que, ao ver o abade colocar-se ao tronco no lugar de Madeleine, diz provocativamente: “Se vai se martirizar, padre, que seja por Deus, não por uma camareira”.

Ainda hoje, há entre os críticos (De Sanctis, Taine, Croce de um lado; e Woelfflin, Balet, Spitzer, Damaso Alonso, de outro) certa discordância entre o lugar de importância que deveria ocupar o estilo barroco. Mas, como observou Alfredo Bosi, “(...) desvalorizar um poema barroco porque ‘vazio’ ou mitizá-lo  porque rebuscadamente estilizado é, ainda e sempre, cometer o pecado de isolar espírito e forma, e não atingir o plano da síntese estética que deve nortear, em última instância, o julgamento de uma obra. A tentação, de resto, parece fatal, e não sei de homem culto, por equilibrado que se professe, que não tenha alguma vez caído nela; mas o importante é vigiar-se para que o dogmatismo de uma opção não nos faça mergulhar na ininteligência de uma das poucas atividades que resgatam a estupidez humana: a arte” (BOSI, Alfredo. In: História Concisa da Literatura Brasileira, São Paulo, Cultrix).