Piolhos do tempo

Recado a mister Woods

Os quinze minutos

Uma palavra aos amigos

 

 

 

 

Acabo de voltar de uma festinha de aniversário e o amigo, vendo meu embaraço com pratos de bolo, brigadeiros e chapéu, se dispõe a atravessar a rua e a abrir o portão de minha casa. A filha, diz ele, vai depois. Subo as escadas pensando no doce que carrego nas mãos e só depois me ocorre que deveria ter me oferecido para ajudar na limpeza da casa. Sei que a cena parece corriqueira mas é que ela me faz pensar nas relações de amor e afeto que vamos construindo ao longo da vida.

Meu vizinho, por exemplo, gosta de lembrar que depois de dez anos estamos voltando aos tempos da xícara de açúcar. É que tenho o péssimo hábito de não olhar os armários antes do supermercado e nenhum pudor em bater à porta do amigo que já me cedeu dois ovos, farinha para o mingau e manteiga. Isso sem falar no pirex de assar peixe que de tanto eu pedir emprestado, ele resolveu que era melhor deixar comigo com a promessa de que pediria de volta quando precisasse. Até hoje não pediu. E o pirex continua servindo para fazer os peixes e as massas que eventualmente levo à mesa.

Isso me faz pensar nos anos em que morei no Rio de Janeiro. Foi lá que aprendi que quando vemos um amigo e ele diz “vamos nos encontrar esta semana, eu te ligo” nem sempre significa compromisso firmado. É claro que isso não se aplica às amizades acreanas, onde a promessa de um pato ou rabo – no tucupi – é religiosamente cumprida. Veja o leitor, por exemplo, o caso da xícara de açúcar. Certamente que no Rio me faltou algumas vezes – culpa da lista de compras – mas não me recordo de ter batido à porta do vizinho da frente ou dos lados. Na verdade, não lembro sequer de tê-los conhecido. Sei apenas que um deles tratava-se de um senhor de meia idade com manias extravagantes como andar de cuecas e touca pelo apartamento. Gostava de bisbilhotar a vida alheia pelas venezianas semicerradas e cantarolava algumas músicas de Cauby Peixoto na hora do banho. No mais, apenas um “bom dia” no elevador.

Não é, portanto, à toa que tenho me desdobrado para reaprender, com os amigos que aqui deixei e os novos que tenho feito, a singela arte de trocar xícaras, pratos, ombros e outras gentilezas. Nem sempre acerto, é verdade. Mas não me faltam as boas intenções. Prova disso é que tenho tido o cuidado de separar, para o meu amigo e vizinho, algumas mangas ou cupuaçus do quintal, e se não lhe mandei ainda um pedaço de bolo é que realmente não os tenho feito.

Além da fatia de bolo, sei que me faltam outras retribuições de apreço. Mas acredito que os amigos, assim como o tempo, moldam-se sem pressa.

(Publicada na edição nº 10, dezembro de 2000, da revista outraspalavras)